Quarta , 13 de Dezembro de 2017
 
Coluna de Paulo Selvaa
 

NEO-PLIS

 Nos últimos tempos, tornou-se muito frequente a observação de legiões de pedestres deslocando-se pelas ruas de alguns bairros de Salvador, sobretudo ao meio-dia e ao final da tarde. Sería até um bom sinal: os soteropolitanos estariam mais conscientes  da necessidade da prática diária de atividades físicas... do prazer de fruir a cidade... mas não; são utentes de ônibus vítimas do estado de colapso que tomou as principais vias do centro e dos bairros periféricos.

O transito simplesmente trava, no mesmo tempo em que os condutores deixam de respeitar semáforos e obstruem cruzamentos de forma desnecessária, irresponsável e ilegal, seguros da impunidade, excepto nos raros pontos de fiscalização eletrônica. Se os ocupantes de veículos particulares não têm alternativa a permanecer retidos nas filas, os passageiros de ônibus, a título de consolação, podem optar  por libertar-se da compressão desumana a que são sujeitos e completar  as suas deslocações por meio de uma caminhada forçada, prescindindo  do serviço de transporte por que pagaram, mas certos de que assim completarão o trajeto mais rapidamente.

Mas este cenário suscita uma profunda e ampla reflexão crítica sobre o  conceito de cidade em que as ruas são encaradas como distâncias a vencer , por meio de veículos motorizados (e poluentes) e não como espaços de vivência e convivência públicas.

Há décadas assiste-se  a uma tendência generalizada nas cidades preocupadas com a qualidade de vida, pelo mundo afora: restrição ou mesmo eliminação do asfalto de ruas e praças nas zonas centrais em prol de calçadas, jardins , esplanadas, ciclovias, equipamentos públicos, etc... induzindo as deslocações pedonais e o uso de meios de transporte alternativos como bicicletas e outros. Desta forma, resgata-se a posse da cidade para os seus criadores e legítimos donos: os cidadãos!

Por tudo isso, não pude evitar  ficar perplexo com a notícia divulgada há algumas semanas, da iniciativa do alargamento da principal via de acesso à região central de Salvador, conhecida como “Paralela”. Na contra-mão da tendência mundial de aposta no eficiente transporte público de massa sobre carris (trem, metro subterrâneo ou de superficie), os gestores públicos da 3ª maior cidade do Brasil decidem investir milhões para “facilitar” a entrada de veículos privados e ônibus na cidade.  Uma invasão comprovadamente insustentável. Poderia ser mera ignorância em planejamento de mobilidade urbana, mas parece que a decisão pela execução de determinadas obras corresponde à compensação acordada pelo financiamento da campanha eleitoral por parte de importantes empresas construtoras...

 

 Verifica-se em Salvador, um flagrante desvirtuamento do conceito urbano herdado da Pólis da Grécia Antiga, pela inversão nos padrões de relacionamento entre os seus habitantes: o outro é encarado como um concorrente, um obstáculo e não mais como um co-cidadão -  elemento, primeiro e último, constitutivo e justificativo da existência das cidades. É já um lugar comum aplicável a muitas cidades brasileiras, mas Salvador está entregue aos carros, não aos cidadãos e essa mentalidade ultrapassada não oferece futuro!

pauloselvaa@hotmail.com

 

Publicado em 04/08/2013 ás 13:45

 
 
 
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